Apartamento 110 - Parte 3
5/Jul/2008Este texto é parte de uma série. É recomendável começar na primeira parte.
Alfredo nunca tinha presenciado uma desordem tão assustadora quanto a que se estabeleceu na sua casa nova após uma semana. A pia não tinha mais espaço sequer para uma colher de chá suja. Restos de hambúrguer davam ao lixeiro da cozinha um cheiro especial, e a companhia constante de moscas de várias gerações, nascidas ali mesmo. Copos sujos se acumulavam por toda a casa, e o chão do quarto era forrado por roupas sujas e sapatos jogados. O colchão estava úmido devido à presença ininterrupta de uma toalha molhada sobre ele.
O pior de tudo eram as refeições, que não ficavam prontas mais. Era necessário fazer ou comprar pronto sempre. Por não ter dinheiro suficiente para comer fora todo dia o rapaz começou a fazer seu próprio lanche. Com isto, sua qualidade de alimentação caiu, já que ele era péssimo na cozinha.
Com a limpeza ele se virava como podia. Lavava um prato toda vez que ia usá-lo e devolvia-o à pia. Resolveu o problema dos copos com copos descartáveis, mas ganhou mais problema com o lixo, além de ferir sua consciência ecologicamente correta.
Noite após noite Alfredo dormia esperando encontrar tudo arrumado na manhã seguinte. Achou que fosse um problema temporário, sabe-se lá em quê especificamente. Fechava os olhos e abria de novo para ver se resolvia. Escondia o rosto no travesseiro e depois verificava o resultado. Nada funcionava.
Conviveu com a sujeira e a bagunça por oito dias, até que considerou aquilo tudo insuportável. Na manhã do nono dia de desespero resolveu tentar fazer algo. Pegou a primeira camiseta que achou no chão, vestiu-a e foi para o apartamento ao lado. Bateu insistentemente até que Jairo, com cara de sono, atendesse a porta.
- Jairo, socorro - disse ele enquanto entrava apressado na casa do amigo. As coisas não estão se arrumando na minha casa.
- Como é, Alfredo?
- A pia tem louça suja há uma semana, o lixo está transbordando no cesto, as roupas estão espalhadas pelo chão, até as peças que usei segunda passada… o caos mora ao seu lado, e se chama minha casa.
Jairo julgou ter entendido o que o amigo queria:
- Cara, amanhã eu dou uma força, mas hoje eu não posso ajudar, tem aquele trabalho pra entregar. Falando nisso, você fez?
Enquanto Jairo falava, Alfredo percebeu que o apartamento do amigo estava bastante bagunçado também. Incompreensivelmente, havia uma meia sobre a antena da TV, e uma cueca embaixo do pequeno rack da sala. Surreal até para quem tinha acabado sair do recinto que julgava ser até então a própria definição de desordem. Sem dar atenção à pergunta que Jairo tinha feito, disse:
- Seu apartamento também está com problemas?
- Do que você está falando?
- Dessa bagunça.
- É, como você deve entender, não tenho tempo pra arrumar, e nem dinheiro sobrando pra pagar uma faxineira… então me viro como posso. Inclusive, se eu te ajudar amanhã você me ajuda a dar uma arrumada aqui no sábado?
- É isso que está errado, Jairo! Por que precisamos arrumar nós mesmos ou contratar uma faxineira? Por que as coisas não se arrumam sozinhas por aqui?
- Pois é, eu também gostaria que se arrumassem, mas isso não acontece.
- Se eu soubesse disso tinha ficado no outro apartamento.
- Por quê? Lá as coisas se arrumavam sozinhas? - Jairo perguntou sorrindo, em um tom jocoso, obviamente zombando de Alfredo.
- Sim.
A resposta de Alfredo foi tão natural e espontânea que Jairo parou surpreso. Ele sabia que Alfredo não era sarcástico, nem tinha um bom humor, nem sabia disfarçar muito bem emoções para fazer uma brincadeira parecer verdade.
- As coisas se arrumavam sozinhas? - Repetiu a pergunta, cético.
- Sim. Por que você está surpreso?
- Você não lavava louças, roupas, limpava o chão ou tirava o lixo?
- Não.
- E como funcionava isso? Você morava sozinho?
- Sim, eu morava sozinho.
- Nenhuma faxineira secreta que arrumava tudo quando você saía?
- Claro que não. As coisas ficavam no lugar mesmo quando eu estava em casa, sem ninguém. Saía de um cômodo para outro, e quando voltava tudo que estivesse desarrumado já estava no lugar, seja roupa, vasilha, comida, lixo, escova de dentes, ou o que quer que seja.
Jairo chegou a se preocupar com a saúde mental do amigo, mas algo na forma de Alfredo dizer as coisas fazia tudo parecer verdade. Passou então alguns minutos ouvindo Alfredo contar como tudo se arrumava aparentemente sozinho. Jairo se impressionou, o que Alfredo não compreendia, já que achava que a arrumação espontânela era algo presente em todos os lugares.
- Quando eu morava na casa dos meus pais era assim. Embora eu visse minha mãe fazendo uma ou outra coisa, na última casa nunca via ninguém, mas as coisas se arrumavam. Pra mim ficou sendo a mesma coisa, o mesmo resultado, e achei tudo normal.
- Não é normal. Precisamos ir lá verificar como isso funciona. Quero o telefone da imobiliária. Onde você morava? - Pediu e perguntou Jairo, entregando o telefone celular para Alfredo.
- Residencial Ipê Amarelo, apartamento 110 - respondeu Alfredo enquanto digitava o número da imobiliária no telefone de Jairo. Mas pra que você quer isso?
- Vou ligar lá e perguntar sobre a disponibilidade do apartamento. Vou me apresentar como alguém interessado, e agendar uma visita. Sei que você não gosta do cara da imobiliária, e também ele te conhece, e ia desconfiar de algo.
- Excelente idéia. Você é bom, cara. Mas não vai dar pra observar muito durante o tempo de uma visita, sem contar que o cara da imobiliária vai estar junto. Se isso for uma característica real do apartamento, e ele descobrir, vai querer aumentar o aluguel para um preço muito alto.
- É, faz sentido. E como fazemos então?
- Façamos os seguinte. O terreno atrás do prédio está vazio. É apenas um matagal. É possível chegar ao muro através dele. O meu antigo apartamento é no térreo. O muro protege exatamente a área de serviço. Não há cerca elétrica naquele trecho de muro, talvez porque ninguém tenha percebido que uma pessoa magra pode passar pelo espaço entre o teto e o muro. Você vai deixar a porta de trás aberta durante a visita, sem que o cara perceba. Eu entro pela área de serviço, depois de pular o muro, e fico na casa observando. Se você quiser pode vir depois. Perfeito, não é?
- Temos uma pequena chance de sucesso, e uma grande chance de dormir na cadeia. Perfeito. Vou ligar pro cara - concordou prontamente Jairo, que gostava de aventuras sem sentido.
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Jairo marcou com o corretor para a sexta-feira seguinte, estrategicamente ao final da tarde, para que nenhuma visita posterior estragasse os planos. Na hora marcada, a visita aconteceu, e Jairo conseguiu deixar a porta aberta, como o combinado. Saiu do apartamento no início da noite, já escuro. Ligou para Alfredo então.
- Cara, eu realmente sou bom. Foi tudo um sucesso. Pode ir pra lá, eu vou comer antes de ir. É bom não chegarmos juntos também, pois pode chamar muita atenção, além de pegar mal dois caras entrarem juntos no mato.
Alfredo, em uma lanchonete próxima dali, apenas confirmou tudo e foi para o local. Ficou parado em um ponto de ônibus próximo do terreno vazio, e aguardou até um momento em que a rua estivesse vazia, o que não demorou muito. Logo entrou no matagal, e foi passando por um caminho estreito e tortuoso que levava ao fundo da área, que era justamente o muro do prédio em que antes morava, que tinha frente voltada para outra rua.
Sem dificuldade, pulou o muro e entrou na casa. Não deixou e sorrir ao confirmar que Jairo tinha conseguido deixar a porta aberta. “Não é que o malandro conseguiu?”, pensou ele.
Foi para seu antigo quarto e fechou a porta, já que lá, dessa forma, podia acender uma lamparina portátil que tinha levado sem que ninguém de fora ou de outro apartamento percebesse. Acendeu sua pequena luz, e viu que a casa estava sem mobília, mas se encontrava limpíssima. Nenhum fragmento de pó no chão, nenhuma teia de aranha e nenhum inseto morto. Sentou no chão, tirou uma revista da pequena mochila que trazia e começou a ler, para esperar Jairo.
Por sua vez, Jairo já tinha acabado de comer, e se dirigia pra o antigo apartamento de Alfredo. Seguiu os mesmos métodos so amigo, mas teve pouca sorte ao entrar no matagal. No segundo andar do prédio, uma mulher estava na área de serviço, e viu a incursão de Jairo. Imediatamente, ela ligou para a polícia. Por menos sorte ainda, uma viatura da PM passava muito perto dali, e foi acionada pelo rádio.
Antes que Jairo pulasse o muro, já que teve dificuldade no caminho difícil pelo meio do mato e do entulho, o carro da polícia já tinha parado na calçada em frente ao terreno, e dois policiais desceram rápido, e entraram no mato com armas em punho, surpreendendo o rapaz com as mãos no alto do muro. Jairo, estupefato, apenas soltou-se do muro e levantou as mãos.
- Eu posso explicar tudo!
- Que bom. O delegado vai gostar de saber - disse um PM mais engraçadinho. Você está preso.
Escrito por Teo Victor








